segunda-feira, setembro 11, 2006

Manuel Patinha: o olhar inteligente la mirada inteligente

Exposição na Fundação Cupertino de Miranda em Vila Nova de Famalicão de 19 de Novembro de 2005 a 24 de Fevereiro de 2006

[Do Catálogo:]
Em 1997, numa conversa com Américo Silva, Manuel Patinha lembrava assim o ponto de partida do seu particular bildungsroman e caminho da perfeição: “Nasci na Póvoa de Santa Iria, limite sul do concelho de Vila Franca de Xira, bem perto de Lisboa. Aí vivi a infância, com a minha família humilde e numerosa, rodeado de fábricas, campos agrícolas, o rio Tejo com os seus avieiros e as salinas, não esquecendo os silvos dos comboios. O meu despertar para o desenho, nesse tempo, é influenciado por todos estes pontos de interesse… copiava tudo, desde os asfaltos, as paredes negras, os cartões, etc., etc. Realizei a minha primeira exposição aos 18 anos na Póvoa de Santa Iria. As obras foram adquiridas, quase na totalidade, por um cidadão italiano que ficou muito surpreendido com o meu trabalho”.
Depois viriam outras estações fundamentais no caminho de quem hoje é considerado na (e desde a) Galiza como um dos mais importantes escultores contemporâneos e, desde essa altura e desde essa linguagem artística, reconsiderado como o extraordinário desenhador, gravador e pintor que foi e que continua a ser, e, para além dessas contingências de linguagens e técnicas, o Poeta que com o olhar de permanente e universal espanto da criança que ele nunca deixou de ser vai descobrindo o mundo para nos descobrir um mundo novo em cada passo dessa sua descoberta ou desocultação. Entre essas estações, o passo pela Marinha de Guerra, a emigração à Alemanha, os trabalhos nas plataformas do Mar do Norte primeiro e depois na África do Sul, a primeira viagem à Galiza – casamento, dois filhos –, a estadia em Madrid – conhecimento de Francisco Aranda e Eugénio Granell – e o regresso definitivo à Galiza na companhia do Álvaro e a Divina.
Aranda e Granell não seriam as únicas referências pessoais ao Surrealismo no percurso da biografia artística de Manuel Patinha. Outra, e da maior importância, seria a do Cruzeiro Seixas, com quem colaborou numa série de “cadavres-exquis” e a quem se devem estas palavras de recordação, definição e reconhecimento: “Intenso e sincero, trabalhador e lutador, parece-me que ele tem em si algo da força de um Facteur Cheval, o que confesso é elogio que eu muito gostaria que me dirigisse alguém. No entanto ele não é um naïf – ou hoje já será difícil alguém o ser. A obra actual mergulha profundas raízes na experiência da vida dura, que quase sempre nos proporciona esta civilização, no momento que se esperaria ser o da sua apoteose, e parece ser afinal o de um muito doloroso ocaso. A anarquia das leis está a dois passos de nós”.
Primeiro foi o desenho – que voltaria mais tarde a visitá-lo: lápis e tinta-da-china sobre papel, pequenos caderninhos escolares, um onirismo lírico vestido da ingenuidade e a rotundidade dum automatismo sem disfarces nem mistificações; depois, a aguarela e o óleo, os “cadavres-exquis”, o grande formato, as pinturas expressionistas que recriam as idades do homem ou a experiência das “cidades tentaculares” esvaziadas do humano e habitadas pela sombra duma ameaça sem rosto e sem perfis; agora, hoje, as pinturas penúltimas recriando um universo de símbolos e signos que se organizam à maneira dum alfabeto pessoal que remetem ao universo expressivo de África ou das ilhas do Pacífico. E, quase em paralelo, a escultura também em constante evolução de materiais, técnicas, formatos e universos simbólicos e referenciais. Desde a perspectiva das últimas produções escultóricas de Manuel Patinha, Xavier Seoane refere-se assim à evolução da sua obra e às constantes nessa evolução: “Patinha, que tem sido um criador muito familiarizado, desde os seus inícios, com o onírico e o instintivo, e incluso com o magmático e o orgânico, dentro duma certa dimensão surrealizante, sabe criar também peças que remetem ao elaborado, ao urbano, ao objectual, ao industrial”. Uma evolução e umas constantes que de alguma maneira reconhece também, entre outros, João Lima Pinharanda: “Ele parte de uma tradição pessoal de aprendizagem e prática surrealizante e tem vindo a depurar formas e modos de associação de formas. O símbolo não se desdobra ou abre, concentra-se sobre si mesmo. As formas não se encadeiam ou provocam por acaso ou por absurdo, concentram-se sobre si mesmas, quando muito, repetem-se por multiplicação do mesmo”.
Surrealista essencial, fora dos grupos e das “estórias” e até do tempo da história do Surrealismo (surrealista “inorgânico”, por assim dizer, e sei bem o pouco que afinal isso importa), Manuel Patinha oferece-nos, desde esta exposição que o Centro de Estudos do Surrealismo da Fundação Cupertino de Miranda acolhe com o maior carinho e entusiasmo, uma nova lição de como, perante a evidência insistente da sórdida e mesquinha realidade quotidiana (a tal “realidade real”) impõe-se a possibilidade evidente e a necessária urgência alternativa duma “realidade poética” edificada à força de palavras e de linhas e de cores e de imagens e símbolos e signos nascidos nas margens do sonho e do desejo.»
Perfecto E. Cuadrado